Technology
Lisboa lança sistemas de tráfego com IA e portal digital até 2026
De redes de tráfego inteligente na Mouraria a um novo portal de serviços digitais previsto para o final de 2026, a capital portuguesa planeja sua reforma tecnológica governamental mais ambiciosa até agora.
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Como apuramos esta matéria
A Câmara Municipal de Lisboa deve aprovar formalmente um pacote de investimentos em cidade inteligente de 47 milhões de euros antes de setembro, acelerando uma transformação que vai impactar desde a coleta de lixo em Alfama até os sistemas de alerta de cheias ao longo da margem do Tejo. Documentos analisados pelo The Daily Lisbon revelam ao menos nove projetos tecnológicos distintos programados para entrar em operação entre agora e o final de 2027, incluindo redes de sensores, uma plataforma unificada de dados dos moradores e expansão da cobertura de fibra óptica para bairros históricos de encosta com menor acesso à infraestrutura digital.
O momento não é por acaso. A Europa enfrenta pressões crescentes, ondas de calor recordes mataram mais de 2.000 pessoas apenas na França durante o mês de junho —, e cidades de Varsóvia a Barcelona correm para adaptar sua infraestrutura aos choques climáticos. Lisboa, que registrou o dia 28 de junho mais quente desde 1942, posicionou os investimentos em cidade inteligente como uma aposta parcialmente voltada à resiliência, e não apenas à modernização dos serviços. O ciclo do Fundo de Coesão da UE encerra em 2027, e os municípios portugueses que não utilizarem os orçamentos aprovados até esse prazo perderão as verbas não gastas.
O projeto de maior impacto no curto prazo é o programa Gestão Inteligente de Mobilidade Urbana, conhecido internamente na Câmara Municipal de Lisboa como GIMU, que instalará 1.400 sensores de tráfego adaptativo por toda a cidade até março de 2027. A primeira fase, que abrange o corredor da Avenida da Liberdade até a Praça do Comércio, já foi licitada e os contratados foram selecionados em maio. Os sensores alimentam uma plataforma de aprendizado de máquina desenvolvida por um consórcio local liderado pelo Instituto Superior Técnico, que testa o algoritmo em uma rede menor no Parque das Nações desde janeiro de 2025. Os resultados preliminares do piloto indicaram uma redução de 14% no tempo médio de deslocamento ao longo do eixo Vasco da Gama nos horários de pico.
O Portal de Serviços Digitais e o que ele oferece na prática
Separado do GIMU, o município está finalizando um portal unificado para moradores chamado Lisboa Digital Direta, com previsão de versão beta em novembro de 2026. A plataforma reúne 63 serviços online anteriormente dispersos, alvarás de construção, matrículas escolares e candidaturas a habitação social, em um único acesso autenticado, integrado ao sistema de identidade Chave Móvel Digital já existente em Portugal. Autoridades municipais descrevem a ferramenta como equivalente ao que Amsterdã implantou com o MijnAmsterdam em 2023, mas com integração adicional à rede nacional de triagem de saúde SNS 24. Moradores de bairros com alta demanda, como Arroios e Beato, onde oficinas semanais de literacia digital acontecem no Beato Innovation Hub —, serão priorizados nos testes de acesso antecipado a partir de outubro.
O plano prevê ainda uma expansão dedicada de dados abertos. O Lisboa Aberta, portal de dados da cidade, atualmente hospeda cerca de 340 conjuntos de dados. Até dezembro de 2026, esse número deverá chegar a 700, incluindo feeds em tempo real da autoridade de estacionamento EMEL e da rede de transporte público CARRIS Metropolitana. Desenvolvedores que utilizaram o portal para criar aplicativos de transporte durante o período da WebSummit de 2024, evento que reuniu 72.000 participantes na FIL, no Parque das Nações, já estão sendo consultados sobre quais conjuntos de dados são mais úteis comercialmente.
As lacunas que ainda precisam ser resolvidas
Nem todas as metas estão dentro do cronograma. A rede de monitoramento ambiental em nível de bairro, originalmente planejada para o Bairro Alto e Santos até o segundo trimestre de 2026, sofreu atrasos após uma disputa em licitação com um fornecedor espanhol de sensores. Engenheiros da câmara afirmam que os contratos renegociados devem permitir o início da instalação em setembro. Já o gêmeo digital planejado para a infraestrutura hídrica da cidade, a ser gerido pela EPAL, permanece em fase de estudo de viabilidade e não entrará em operação antes de 2028.
Moradores e empresas que acompanham a implantação devem ficar atentos: a fase do GIMU que afeta a zona Baixa-Chiado começa a impactar a fiscalização de estacionamento em superfície a partir de 18 de agosto, quando os parquímetros tradicionais serão desativados em favor do pagamento exclusivo por aplicativo, por meio da plataforma Via Verde. Promotores imobiliários com projetos na Mouraria e na frente ribeirinha de Santos também devem estar cientes de que o novo portal digital de alvarás substituirá integralmente o licenciamento em papel a partir de janeiro de 2027, com um período de transição de seis meses oferecido aos requerentes com processos em andamento. A câmara agendou três sessões públicas de esclarecimento em julho, no Pavilhão do Conhecimento, no Centro Cultural de Belém e no centro cívico do Almirante Reis —, para quem quiser entender o que está por vir e quando.